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O desafio da gestão de relacionamento na saúde

“A melhor maneira de prever o futuro é cria-lo”
Peter Drucker


Um dos problemas mais frequentemente observados no ambiente de gestão da saúde está relacionado ao que convencionamos chamar de gestão de relacionamento. É na gestão do relacionamento que se concentra um dos pontos críticos de nosso sistema de saúde - público e privado - e possivelmente onde um grande esforço deveria ser dispendido na busca de melhores resultados . Gerenciar corretamente o tempo, gerenciar corretamente problemas e gerenciar a melhor tomada de decisão são fundamentos necessários para o correto desempenho de uma instituição de saúde vitoriosa. Lamentavelmente não é o que observamos em nossa prática diária. É inacreditável que pacientes sejam mantidos em ambientes hospitalares caros e complexos durante vários dias aguardando uma liberação de autorização para que a unidade hospitalar esteja autorizada a praticar a intervenção que o paciente necessita, desperdiçando recursos e colocando em risco a vida do paciente e a reputação da instituição. Ou que os pacientes após alta hospitalar não tenham qualquer controle de eventuais complicações imediatas realizadas através de um call center da organização prestadora de serviços. Ou ainda, que os distribuidores de insumos e equipamentos frequentemente deixem de suprir as demandas da instituição de saúde colocando em risco a boa prática assistencial. Da mesma forma causa perplexidade a todos que planos de saúde simplesmente devolvam faturas de atendimentos realizados por seus credenciados sem qualquer justificativa para o não pagamento, criando com isso uma relação de insegurança e desconfiança em todo o sistema.

A impressão que temos é de que no setor saúde ainda precisamos caminhar muito para atingir as boas práticas de gestão de relacionamento que outros setores da economia já alcançaram.

Mas acho que se estas dificuldades são geradoras de imensos problemas são também uma grande oportunidade para construirmos um ambiente de relacionamento que seja o mais confiável e seguro possível para todos. Inúmeras ferramentas modernas de gestão tem sido testadas na tentativa de se criar um modelo de negócios mais confiável e uma das mais conhecidas é o CRM - Customer Relationship Management, que tenta entender e antecipar as necessidades dos clientes. Entretanto, é muito importante que antes de implantarmos qualquer ferramenta que possa nos auxiliar a gerenciar melhor o relacionamento no setor, façamos um primeiro esforço de identificar corretamente todos os participantes da cadeia de serviços na saúde e tentar enquadra-los dentro do conceito de clientes dos serviços de saúde, afinal em determinadas circunstâncias esses clientes podem ser pacientes ou consumidores de serviços, os médicos, os planos de saúde, além dos setores de RH de empresas que contratam planos de saúde para seus empregados. Temos assim um desafio: como proceder para que o equilíbrio - econômico, técnico e administrativo - entre todos esses atores seja mantido e que no final consigamos agregar valor para o paciente em nossas ações operacionais?

Ou seja, como criar um relacionamento confiável entre todos os atores do sistema de saúde que possa resultar em melhoria para todos, como definiu Michael Porter em seu livro Repensando a Saúde.

No meu entendimento somente existe uma maneira de atingirmos esse objetivo : se as ações implementadas estiverem sempre focadas no melhor resultado para o paciente, conforme recomendam as boas práticas assistenciais. Focando no paciente e buscando sempre os melhores resultados para eles, erraremos menos em nossas tomadas de decisão.

E a melhor maneira de avaliarmos se nossas decisões estão levando benefícios para os pacientes é através da comparação de nossos resultados assistenciais, ou seja medindo o que fazemos.

Desta forma, toda instituição prestadora de serviços de saúde no Brasil, incluindo as operadoras de planos de saúde, deveriam publicar seus resultados assistenciais e assim podermos comparar os melhores indicadores de qualidade. Esta tem sido a tendência observada em todo o mundo moderno de gestão da saúde com inúmeras organizações de saúde buscando a certificação de qualidade de seus processos operacionais através de diversas metodologias, nas quais se destaca a acreditação, como forma de avaliar e comparar seus resultados.

A expectativa é que em breve, a escolha de todos os prestadores de serviços - operadoras de planos de saúde, médicos, hospitais, clínicas, laboratórios, empresas de home care e demais atores do sistema - se dará pela qualidade dos resultados que apresenta.

Seria portanto recomendável que iniciássemos de imediato um aprimoramento em nossas práticas de comunicação permitindo que organizações de saúde possam informar seus resultados dentro de um padrão ético e com dados claramente expostos para que os usuários do sistema de saúde possam fazer suas escolhas com base em dados técnicos confiáveis.

Mas para que consigamos os melhores resultados necessitamos criar primeiro um relacionamento mais adequado com toda a cadeia produtiva do setor saúde e para isso deveríamos aí sim, utilizar as diretrizes recomendadas pelo CRM tais como: Relacionamento personalizado, estímulo a lealdade do cliente a marca, conhecer a base de clientes, busca de dados com foco no cliente, capacidade de capturar as informações, analisá-las e reagir as demandas dos clientes na maior velocidade possível, utilizar bancos de dados para análise logística do cliente e estabelecer com os clientes um relacionamento de constante aprendizado.

O CRM - Gerenciamento de Relações com Clientes , tem de ser entendido como uma relação de processos de negócios que ajudam as organizações a conquistar, reter e fidelizar clientes e fornecedores de insumos e serviços, atendendo-os de forma integrada e personalizada, aumentando assim a satisfação no relacionamento entre a organização e toda a cadeia produtiva de serviços na saúde com inegáveis benefícios para o paciente. O CRM não é algo restrito a um software mas sim uma filosofia empresarial cultivada como um valor doutrinário que cria na organização o culto ao bom relacionamento com toda a cadeia de produção de serviços em saúde. O desenvolvimento desta mentalidade é a chave do sucesso para uma boa gestão de relacionamento e para isso necessitamos criar uma base de dados confiáveis que possam ser transformadas em informações relevantes e que dê apoio ao gestor em suas tomadas de decisão.

Se as dificuldades nas relações entre prestadores de serviços, agencias reguladoras, operadoras de planos de saúde e os consumidores finais dos serviços são frequentes e são fatores causais de dificuldades na busca de melhores resultados, ainda temos um fator adicional a isso tudo que é o descompasso nas relações com fornecedores de serviços e produtos que também tem sido responsável por inúmeros e sérios problemas com o atendimento aos pacientes em regime de atendimento hospitalar e domiciliar.

Quando reiteradamente falamos da importância de focar nossos olhares no resultado que o tratamento proposto gerará para o paciente, estamos também afirmando que essa regra vale para os fornecedores de serviços e insumos. Segundo Porter, os fornecedores de insumos e serviços são muitas vezes levados a oferecer incentivos, alguns deles questionáveis, para que os médicos utilizem seus produtos e serviços, ao invés de demonstrarem que seus produtos e serviços oferecem resultados superiores do ponto de vista técnico e econômico para os pacientes.

Para que possamos mudar o jogo atual, em que a assistência à saúde tem sido compartimentalizada, necessitamos construir uma relação de confiança que sirva de alicerce para o sistema, gerenciando o relacionamento entre todos nos seus mínimos detalhes morais e econômicos para que ao longo do tempo, possamos demonstrar que a gestão de serviços na saúde feita desde o nascimento até a morte de qualquer cidadão, gera resultados positivos e que todos os participantes - pacientes, médicos e demais profissionais de saúde, consultórios, hospitais, clínicas, empresas de home care, laboratórios, planos de saúde, departamentos de RH das empresas e fornecedores de insumos e serviços - precisam estar integrados e trocando informações, utilizando uma plataforma única de informação, permitindo assim que se evite o monumental desperdício na saúde que hoje observamos e que se viabilize os recursos existentes gerando mais valor para cada unidade monetária gasta na atenção primária, secundária e terciária da saúde.

Josier Marques Vilar
Médico, diretor da PRONEP, Presidente do SINDHRIO e organizador do livro Governança Corporativa na Saúde.

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